sexta-feira, agosto 17, 2007

em processo de evacuação, digo, construção...

Ela caminha rapidamente. Olhar atento, cumprimenta aquela garota com quem raramente fala e que muitas vezes critica. Crítica solitária, claro.


Entra no corredor. Passa pelas poucas pessoas que o atravessam séria, olhar compenetrado, como quem caminha pensando em mil coisas: o dia-a-dia, o projeto, a roupa, os deveres, a espera. Caminha com ares de mulher moderna, preocupada com o futuro. Uma multi-mulher. "Senhores, esta mulher não tem tempo a perder", pensa. Todos podem notar isso, o que não imaginam é que a frase tem tom irônico e que a ânsia em ser rápida e decidida é por um motivo bem menos requintado, acompanhado por uma dose generosa de recato.


"Feminino". Ela chega ao seu destino. Um banheiro. Largo, branco e vazio. "Vazio, graças a deus", comemora - em pensamento, claro. Em seu rosto a mulher moderna permanece, afinal de contas, pode ser que alguém apareça.


Alta, séria, bonita. Sorriso largo, olhar profundo. Seios fortes, inteligente. Ela sabe opinar sobre tudo, fala três línguas. Bom senso inigualável. Bem humorada, carinhosa. Ela sabe o que quer. Em sua página eletrônica pessoal, frases célebres em meio à sua breve descrição. Ela parece nos contar tudo. Não se engane. A moça guarda um segredo terrível: possui intestinos.


Banheiro vazio, ela pode escolher o box que desejar... passam um, dois, três... hum... o último parece perfeito, se alguém chegar, nunca dará conta que a mulher-gato está lá, seguindo o fluxo natural das comidas, digo, das coisas. Entra, fecha a porta. Olha à sua volta e faz a vistoria de sempre, rapidamente. Não vê o gancho para colocar sua bolsa, então critica. Crítica solitária, como sempre. Pendura a bolsa no fecho da porta mesmo, afinal o que ainda é mais importante é o segundo tópico da vistoria: papier toilette. Tudo ok, ela inicia o ritual. Um, dois, três, oito pedaços de papel para forrar o assento. Dois para cada lado, para não ter perigo de encostar seu derrière onde tantas outras mulheres encostam os seus. Tudo certo, ela se acomoda.



Olha para o alto. Nota a presença de algumas tropas daqueles malditos mosquitos de luz, prontos para atacar qualquer momento de paz na privada, digo, privada. Então xinga. Bando de filhos da puta! Queridos, compactuemos com a angústia da mademoiselle em questão. Já imaginaram se um desses seres desprezíveis decide ver mais de perto um exemplar do austero ser humano em um momento tão primitivo quanto ele próprio? Xeque-mate no orgulho de nossa lady. E sabemos que orgulho ferido é uma merda - providencial, aliás.