sexta-feira, dezembro 28, 2007

O próximo ato

cena 1

roupa
fresta
corpo
gosto
gesto

cena 2

luz
dentes
voz
pele
sal

cena 3

silêncio.

cena 4

- você vem?
- nunca e sempre.
- ...
- me revelo. não quero.
- eu sei.
- você diz.
- você finge.
- você quer.
- eu preciso.
- mas eu...
- eu entendo. pode ir.
- mas sempre vou ficar.
- eu, definitivamente, sei.

cena 5

Brigitte Bardot acena com a mão, num filme muito antigo.


mary jane
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"a saudade/é brigitte bardot/acenando com a mão/num filme muito antigo"
***
Brigitte Bardot, Z. B.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Deu o primeiro gole. Profundo. A gota violácea escapou-lhe e conheceu seu colo, tepidamente nu.
Riu-se toda. Era a primeira vez que sentia-se livre: a porta que G. batera antes de sair ainda estava entreaberta e sua imagem diminuía no horizonte como uma chama que se apaga lentamente.

Por um instante, lamentou não poder recorrer à língua quente daquele que a deixara, para salvar a gota que ia descobrindo cada curva do seu corpo lânguido e claro. Superou tal falta dando o segundo gole, sentindo o gosto do vinho que guardara durante anos, esperando uma ocasião digna de consumi-lo.

Dizia-se que Tannat hamonizáva-se com carnes vermelhas e molhos fortes: perfeita ocasião.

Provando sabor tão marcante quanto o rastro carmim deixado pela gota em sua pele alva, estendeu-se sobre a cama acetinada. O robe negro, entreaberto, mal roçava o lençol, escorregando por entre as formas voluptuosas da mulher. Anoitecia.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Tocou o papel. Uma carta.

Antes que anunciem coisa indevida: não. Não era de amor. Não o amor que entrega-se na face rosada de quem permite escapar o sorriso pelo canto da boca, acompanhado pelo olhar baixo que, num delicioso paradoxo, deseja se esconder e se revelar. Sôfrego.

Não esse amor.

Desgastado. Um amor que caminha como o velho do outro lado da rua, para quem olhamos e enxergamos apenas a impossibilidade de ser como ele algum dia. Um amor esculpido pelo tempo, repleto daquela que representa a certeza de algo que não existe mais: a lembrança.

Mas era o amor.

Então sorriu. Mais uma vez, não. Não felicidade, gozo. A essa altura da vida, palavras banhadas em ouro ou fel fazem pousar um sorriso nos lábios de quem as toma... sorriso sábio, não sofre as desventuras da frustração.

Despedida. Confissão. Uma carta antiga.

Apenas recolheu-se. Olhar longe, o sorriso no rosto. Respirou fundo, a brisa beijava seus cabelos prateados... o viço da pele se escondia com o passar dos dias.

E havia o amor. Sempre pouco.


mary jane

sexta-feira, novembro 16, 2007

alter ego

verdade ou desafio?

sempre que escolhemos a verdade, optamos pelo desafio - que por sua vez, desfia o novelo dos sonhos.

meu novelo de ilusões acabou. não há desafio que me desfie mais. acreditar em quê? pra quê?

agora...

agora minha trama é com cordas. grossas, rústicas: qualquer um pode ver onde elas atam e desatam os nós da minha garganta.

acreditem! sou eu mesma, sendo outra.




mary jane

quinta-feira, outubro 18, 2007

- E o o que acontece quando duas pessoas se separam de comum acordo?


- Ninguém se separa. As pessoas se abandonam.




do filme O Passado






sexta-feira, agosto 17, 2007

em processo de evacuação, digo, construção...

Ela caminha rapidamente. Olhar atento, cumprimenta aquela garota com quem raramente fala e que muitas vezes critica. Crítica solitária, claro.


Entra no corredor. Passa pelas poucas pessoas que o atravessam séria, olhar compenetrado, como quem caminha pensando em mil coisas: o dia-a-dia, o projeto, a roupa, os deveres, a espera. Caminha com ares de mulher moderna, preocupada com o futuro. Uma multi-mulher. "Senhores, esta mulher não tem tempo a perder", pensa. Todos podem notar isso, o que não imaginam é que a frase tem tom irônico e que a ânsia em ser rápida e decidida é por um motivo bem menos requintado, acompanhado por uma dose generosa de recato.


"Feminino". Ela chega ao seu destino. Um banheiro. Largo, branco e vazio. "Vazio, graças a deus", comemora - em pensamento, claro. Em seu rosto a mulher moderna permanece, afinal de contas, pode ser que alguém apareça.


Alta, séria, bonita. Sorriso largo, olhar profundo. Seios fortes, inteligente. Ela sabe opinar sobre tudo, fala três línguas. Bom senso inigualável. Bem humorada, carinhosa. Ela sabe o que quer. Em sua página eletrônica pessoal, frases célebres em meio à sua breve descrição. Ela parece nos contar tudo. Não se engane. A moça guarda um segredo terrível: possui intestinos.


Banheiro vazio, ela pode escolher o box que desejar... passam um, dois, três... hum... o último parece perfeito, se alguém chegar, nunca dará conta que a mulher-gato está lá, seguindo o fluxo natural das comidas, digo, das coisas. Entra, fecha a porta. Olha à sua volta e faz a vistoria de sempre, rapidamente. Não vê o gancho para colocar sua bolsa, então critica. Crítica solitária, como sempre. Pendura a bolsa no fecho da porta mesmo, afinal o que ainda é mais importante é o segundo tópico da vistoria: papier toilette. Tudo ok, ela inicia o ritual. Um, dois, três, oito pedaços de papel para forrar o assento. Dois para cada lado, para não ter perigo de encostar seu derrière onde tantas outras mulheres encostam os seus. Tudo certo, ela se acomoda.



Olha para o alto. Nota a presença de algumas tropas daqueles malditos mosquitos de luz, prontos para atacar qualquer momento de paz na privada, digo, privada. Então xinga. Bando de filhos da puta! Queridos, compactuemos com a angústia da mademoiselle em questão. Já imaginaram se um desses seres desprezíveis decide ver mais de perto um exemplar do austero ser humano em um momento tão primitivo quanto ele próprio? Xeque-mate no orgulho de nossa lady. E sabemos que orgulho ferido é uma merda - providencial, aliás.