quinta-feira, setembro 28, 2006

Uma vez aconteceu.

Cabeça baixa, sustentada por uma só mão, cotovelo apoiado na perna; tronco levemente curvado, relaxado, em um breve "efeito dominó".... ah.... se alguém chegasse e fizesse algo para desarmonizar aquela cadeia de sobrepesos.....

A folha na outra mão, gelidamente parada. Olhos fixos. Boca calada. E antes que anunciem coisa indevida: não. Não era de amor.

Então as palavras caminharam até seus olhos. Penetraram. Tangendo a retina, foram carregadas pelas entranhas do cérebro e retornaram subitamente: diante de si um pensamento que não se contentou em ser imaterial. Brusca e salgadamente explodiu.... materializou-se, tornou-se líquido....

O que aconteceu?
Fez sentido.


mary jane

quarta-feira, setembro 20, 2006

Você quer ser John Malkovich? Eu quero ser Simone.

"Simone Está Nua

Parecia só mais uma mulher nua. Não era. Ela nunca participou do Big Brother, não é atriz e modelo, jamais foi à Ilha de Caras. Para falar a verdade, acho que pouca gente um dia parou para pensar que ela pudesse tirar a roupa. Bem, podia. Eu vi a Simone de Beauvoir nua. No jornal. Gostosa, até. Aliás, mais que nua: apenas de salto alto, o que de algum jeito a deixa ainda mais pelada. É como a marquinha de biquíni, reforçando a nudez ao destacar a ausência de qualquer pedaço de pano, por menor que fosse. O texto informava que ela tinha 42 anos quando a foto foi tirada, em 1950. Parece menos. Derrière firme e volumoso como as mais de 800 páginas de O Segundo Sexo. Quantas mulheres se deixariam fotografar sem roupa aos 42, décadas antes da Coca Light, power ioga, Diet Shake e outras coisas para emagrecer com nome em inglês? Melhor: a foto não teria sido batida por seu companheiro de existência e existencialismo, e sim por um amigo. Um “homem travesso”, ela contou. Enfim. A porta entreaberta dá mesmo impressão de ser uma imagem roubada. Ao mesmo tempo, a pose é boa demais para um flagrante. Perna esquerda mais à frente, as costas empinadas, braços altos. Não é a única incerteza da imagem. As mãos ajeitam com cuidado grampos para prender o cabelo. Ou seria para soltar o cabelo? Ela está saindo ou chegando? É a mulher nua se arrumando para virar o símbolo feminista, ou o contrário? Nem importa muito. A foto é irresistível porque mostra que força e feminilidade cabem no mesmo corpo. Simone de Beauvoir está mais Simone de Beauvoir nesse retrato íntimo em preto-e-branco do que naqueles em que aparece com um lenço na cabeça, séria. Aqui, ela mostra uma idéia poderosa, a de que uma mulher não precisa optar entre inteligência ou beleza, carreira ou fogão, poder ou família. Pode ter tudo. E, se é assim, para que se contentar com menos? "

fragmento do editorial da revista Tpm, edição #57 - por Fernando Luna

segunda-feira, setembro 18, 2006

Ela fitou-o.


Estendendo o corpo sobre a cama, fechou os olhos. Quando abriu-os, olhou o nada, como quem acorda de repente, cortando madrugada de morno sono.


Ele havia apagado a luz.


Sorriu.


Erguendo-se, procurou-o. Então mãos envolveram seu ventre, por baixo da blusa de tênue tecido. Coxas abraçaram seu quadril. Profecias penetraram seus ouvidos.


Foi quando o riso largo cedeu espaço à expressão séria, entre o prazer e a dor.


A boca entreaberta balbuciava a súplica por se chegar a algum lugar.


Sabiam onde.


Desejou-o. Muito. Com um movimento rápido e denso, virou-se, envolvendo-o em seus lânguidos braços. A respiração já podia ser ouvida. E o sal da pele refletira a tímida luz que insistia em passar pelas mínimas fissuras da janela. Beijou-o. Madura e deliciosamente.


As vestes denunciavam o desejo esculpido com o passar dos dias.