quinta-feira, dezembro 21, 2006

Instinto Coletivo


Nada muito profundo para ser dito. Só o que veio à flor da pele quando me deparei com essa foto.

Forte. Muito forte.

Imagine uma visão panorâmica. Agora aperte o zoom. Rápido. E ele exibe essa imagem.

O legado histórico "concedido" a uma nação e seu sentimento mais íntimo, profundo, individual. A pequena mão sobre a boca maternal, como quem se rende à solidão:



"Somos só nós, ninguém vai nos ouvir, cala tuas angústias e poupa essa energia gasta em vão. Fica comigo agora."



mary jane


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Cálice (Chico Buarque)

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado

Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguem me esqueça

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Mulher nigeriana e a mão de seu filho, a foto vencedora do prêmio World Press Photo 2006(autor: Finbarr O'Reilly)









segunda-feira, novembro 27, 2006

tempo

vc já sentiu um vazio?
mas assim, vazio de alma?
vazio, como um copo vazio. vazio mesmo. como se fosse pele e ar.
como se vc respirasse o que há dentro de vc? AAAAAAAAAAAaaarrr......

já esteve à margem de vc mesmo?
olho fotos, tento recuperar sensações... AAAAAAAAAAAAaaarrr.......

músicas..... convicções...... o tempo passa... AAAAAAAAAaaarr...

cara, vc já parou pra pensar nisso? o tempo passa. digito um ponto .
pronto. lá se foi. mais um segundo. outro. e outro. vários..

AAAAAAAAAAAaaaaaarrrr.....

onde ficam guardados os cheiros, sensações, risos, olhares que o tempo leva consigo?

poderiam ficar arquivados.

aí, quando viesse esse vazio....... AAAAAAAAAAAAAAAAAAaaaaaaaaaaaaarrrrrrr...

puxaria uma pasta.

o tempo dói.

o que é a saudade senão a dor do tempo?

é muito louco.......
civilizações passaram, mulheres e homens cresceram, lutaram, viveram à sua época, às suas convicções; já teve fogueira, escravidão, navegações, bomba atômica, idade do fogo, idade da pedra, epidemias, pirâmides, escrita cuneiforme, deuses gregos, apartheid, nanotecnologia, lua, marte.

e ela existe. e sempre existiu.

todos já sentiram saudade.







mary jane

quinta-feira, setembro 28, 2006

Uma vez aconteceu.

Cabeça baixa, sustentada por uma só mão, cotovelo apoiado na perna; tronco levemente curvado, relaxado, em um breve "efeito dominó".... ah.... se alguém chegasse e fizesse algo para desarmonizar aquela cadeia de sobrepesos.....

A folha na outra mão, gelidamente parada. Olhos fixos. Boca calada. E antes que anunciem coisa indevida: não. Não era de amor.

Então as palavras caminharam até seus olhos. Penetraram. Tangendo a retina, foram carregadas pelas entranhas do cérebro e retornaram subitamente: diante de si um pensamento que não se contentou em ser imaterial. Brusca e salgadamente explodiu.... materializou-se, tornou-se líquido....

O que aconteceu?
Fez sentido.


mary jane

quarta-feira, setembro 20, 2006

Você quer ser John Malkovich? Eu quero ser Simone.

"Simone Está Nua

Parecia só mais uma mulher nua. Não era. Ela nunca participou do Big Brother, não é atriz e modelo, jamais foi à Ilha de Caras. Para falar a verdade, acho que pouca gente um dia parou para pensar que ela pudesse tirar a roupa. Bem, podia. Eu vi a Simone de Beauvoir nua. No jornal. Gostosa, até. Aliás, mais que nua: apenas de salto alto, o que de algum jeito a deixa ainda mais pelada. É como a marquinha de biquíni, reforçando a nudez ao destacar a ausência de qualquer pedaço de pano, por menor que fosse. O texto informava que ela tinha 42 anos quando a foto foi tirada, em 1950. Parece menos. Derrière firme e volumoso como as mais de 800 páginas de O Segundo Sexo. Quantas mulheres se deixariam fotografar sem roupa aos 42, décadas antes da Coca Light, power ioga, Diet Shake e outras coisas para emagrecer com nome em inglês? Melhor: a foto não teria sido batida por seu companheiro de existência e existencialismo, e sim por um amigo. Um “homem travesso”, ela contou. Enfim. A porta entreaberta dá mesmo impressão de ser uma imagem roubada. Ao mesmo tempo, a pose é boa demais para um flagrante. Perna esquerda mais à frente, as costas empinadas, braços altos. Não é a única incerteza da imagem. As mãos ajeitam com cuidado grampos para prender o cabelo. Ou seria para soltar o cabelo? Ela está saindo ou chegando? É a mulher nua se arrumando para virar o símbolo feminista, ou o contrário? Nem importa muito. A foto é irresistível porque mostra que força e feminilidade cabem no mesmo corpo. Simone de Beauvoir está mais Simone de Beauvoir nesse retrato íntimo em preto-e-branco do que naqueles em que aparece com um lenço na cabeça, séria. Aqui, ela mostra uma idéia poderosa, a de que uma mulher não precisa optar entre inteligência ou beleza, carreira ou fogão, poder ou família. Pode ter tudo. E, se é assim, para que se contentar com menos? "

fragmento do editorial da revista Tpm, edição #57 - por Fernando Luna

segunda-feira, setembro 18, 2006

Ela fitou-o.


Estendendo o corpo sobre a cama, fechou os olhos. Quando abriu-os, olhou o nada, como quem acorda de repente, cortando madrugada de morno sono.


Ele havia apagado a luz.


Sorriu.


Erguendo-se, procurou-o. Então mãos envolveram seu ventre, por baixo da blusa de tênue tecido. Coxas abraçaram seu quadril. Profecias penetraram seus ouvidos.


Foi quando o riso largo cedeu espaço à expressão séria, entre o prazer e a dor.


A boca entreaberta balbuciava a súplica por se chegar a algum lugar.


Sabiam onde.


Desejou-o. Muito. Com um movimento rápido e denso, virou-se, envolvendo-o em seus lânguidos braços. A respiração já podia ser ouvida. E o sal da pele refletira a tímida luz que insistia em passar pelas mínimas fissuras da janela. Beijou-o. Madura e deliciosamente.


As vestes denunciavam o desejo esculpido com o passar dos dias.