segunda-feira, março 24, 2008

Oração pra boi dormir

Caminhava como uma heroína dos irmãos Grimm, entre árvores, cantarolando uma canção besta, pensando no príncipe encantado.
Era mulherzinha. Sainha, blusinha, sapatinho, cabelinho, bo...quinha. Toda pequenininha. Seu sorrisinho era tão inocente quanto o de uma meretriz francesa. Ou de uma daquelas musas televisivas que parecem estar sempre prontas para o assunto...
Mas a mulherzinha não se achava a tal. Se dizia coitadinha, não tinha namoradinho, não dava beijinhos, tampouco a bundinha. Redondinha, até. Ela era muito tristinha.
Mesmo assim cantarolava. Tinha, no fundo, bem no fundinho mesmo, a esperança de encontrar alguém assim, legalzinho, bonitinho, romantiquinho, que desse umas florzinhas com cartinhas de vez em quando - e que a fizesse ouvir uns sininhos, de vez em sempre (mas isso ela não contava pra ninguém).
Então ela rezava. Rezava demais. Tinha muita "fé". Muita mesmo, acreditava até que se os santos vissem as suas coxinhas, poderiam se render aos seus pedidos matrimoniais. Então ela dava uma rezadinha de shortinho, mini-sainha, vestidinho. Ou então confessava seus poucos pecadinhos.
O padre adorava.
-Chegue mais perto, minha filha. Diga, pecaste?
-Ai padre... eu estou me sentindo tão envergonhadinha... pensar em bobeirinhas é pecado?
-Que tipo de bobeiras? - e já começava a suar...
-Ai padre, preciso falar mesmo?
-Diga, minha filha... não esconda nada - e olhava as perninhas, a bundinha, lamentava não poder dar uma bela encoxadona. E pedia perdão, de olhos fechados. E sonhava poder comê-la, de olhos bem abertos.
-Eu tenho sentido muito a falta de um namoradinho... alguém que me fizesse bem alegrinha, sabe?
-Hã... - e não falava mais nada, começava o ritual... segurava bem firme o "crucifixo".
-Tenho pensado muito nisso... e tenho tido outros sonhos impuros. Pequei, né?
-Aham...
-Padre, o senhor está me ouvindo? Parece tão "compenetrado"...
Era o diabo. Só podia. O coisa-ruim, lá no confessionário, fazia o padreco chamar Jesus de Genésio. A safadinha rezava de forma tão sincera que até parecia uma beatinha.
Levantou-se. Em nome do pai, do filho e do espírito-santo, ajeitou a saia. O cabelo. A blusinha.
-Obrigada, padre. Me sinto bem melhor agora.
-Pode ir, minha filha. Volte sempre...
Hoje o padreco abandonou a batina. Ficou com a mulherzinha. Ele até é legalzinho, romantiquinho, atende aos quesitos das florzinhas e sininhos.
E nossa heroína continua bastante religiosa... Mas o padreco não se engana, e abaixa a cabeça quando passa pelo batente da porta.

Amém.



mary jane

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Lembro-me da primeira vez que ouvi uma frase, entre muitas já ditas a mim, que hoje soa como uma verdade irrefutável. Tudo bem, talvez esse "irrefutável" seja um pouco pesado, muito verdadeiro e deveras sintomático: coisa de velho. Meu caro, dizer que "nascemos sozinhos e morremos sozinhos" não é um exagero. É um estratagema. O inimigo é a implacável solidão, essa cólera que bate à minha porta quando fecho os olhos e respiro fundo, p-a-u-s-a-d-a-m-e-n-t-e. Lá vem ela, traiçoeira, alcoviteira safada, quer me unir à tristeza, à melancolia, à realidade. Bom, a realidade é justamente essa: só. Estar só. Se ver só. Então me pego pensando em maneiras de saber lidar com isso, essa dor, esse sulco.
Encaro a maldita de frente: sim, sou só. E sempre serei.
Pronto, ela sabe que eu sei o segredo.
Certa vez, enquanto tentávamos nos acertar, ela me disse que essa confusão toda tem nome. Amor. Em letras garrafais, proporcionais ao tamanho do mal - e do bem - que ele faz.
Talvez mais maldito ainda seja o amor.
Sereno, de canto doce e abraço quente - que nos leva a querer tudo e que não deixa levar nada.


mary jane