"Simone Está NuaParecia só mais uma mulher nua. Não era. Ela nunca participou do Big Brother, não é atriz e modelo, jamais foi à Ilha de Caras. Para falar a verdade, acho que pouca gente um dia parou para pensar que ela pudesse tirar a roupa. Bem, podia. Eu vi a Simone de Beauvoir nua. No jornal. Gostosa, até. Aliás, mais que nua: apenas de salto alto, o que de algum jeito a deixa ainda mais pelada. É como a marquinha de biquíni, reforçando a nudez ao destacar a ausência de qualquer pedaço de pano, por menor que fosse. O texto informava que ela tinha 42 anos quando a foto foi tirada, em 1950. Parece menos. Derrière firme e volumoso como as mais de 800 páginas de O Segundo Sexo. Quantas mulheres se deixariam fotografar sem roupa aos 42, décadas antes da Coca Light, power ioga, Diet Shake e outras coisas para emagrecer com nome em inglês? Melhor: a foto não teria sido batida por seu companheiro de existência e existencialismo, e sim por um amigo. Um “homem travesso”, ela contou. Enfim. A porta entreaberta dá mesmo impressão de ser uma imagem roubada. Ao mesmo tempo, a pose é boa demais para um flagrante. Perna esquerda mais à frente, as costas empinadas, braços altos. Não é a única incerteza da imagem. As mãos ajeitam com cuidado grampos para prender o cabelo. Ou seria para soltar o cabelo? Ela está saindo ou chegando? É a mulher nua se arrumando para virar o símbolo feminista, ou o contrário? Nem importa muito. A foto é irresistível porque mostra que força e feminilidade cabem no mesmo corpo. Simone de Beauvoir está mais Simone de Beauvoir nesse retrato íntimo em preto-e-branco do que naqueles em que aparece com um lenço na cabeça, séria. Aqui, ela mostra uma idéia poderosa, a de que uma mulher não precisa optar entre inteligência ou beleza, carreira ou fogão, poder ou família. Pode ter tudo. E, se é assim, para que se contentar com menos? "
fragmento do editorial da revista Tpm, edição #57 - por Fernando Luna

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