Era mulherzinha. Sainha, blusinha, sapatinho, cabelinho, bo...quinha. Toda pequenininha. Seu sorrisinho era tão inocente quanto o de uma meretriz francesa. Ou de uma daquelas musas televisivas que parecem estar sempre prontas para o assunto...
Mas a mulherzinha não se achava a tal. Se dizia coitadinha, não tinha namoradinho, não dava beijinhos, tampouco a bundinha. Redondinha, até. Ela era muito tristinha.
Mesmo assim cantarolava. Tinha, no fundo, bem no fundinho mesmo, a esperança de encontrar alguém assim, legalzinho, bonitinho, romantiquinho, que desse umas florzinhas com cartinhas de vez em quando - e que a fizesse ouvir uns sininhos, de vez em sempre (mas isso ela não contava pra ninguém).
Então ela rezava. Rezava demais. Tinha muita "fé". Muita mesmo, acreditava até que se os santos vissem as suas coxinhas, poderiam se render aos seus pedidos matrimoniais. Então ela dava uma rezadinha de shortinho, mini-sainha, vestidinho. Ou então confessava seus poucos pecadinhos.
O padre adorava.
-Chegue mais perto, minha filha. Diga, pecaste?
-Ai padre... eu estou me sentindo tão envergonhadinha... pensar em bobeirinhas é pecado?
-Que tipo de bobeiras? - e já começava a suar...
-Ai padre, preciso falar mesmo?
-Diga, minha filha... não esconda nada - e olhava as perninhas, a bundinha, lamentava não poder dar uma bela encoxadona. E pedia perdão, de olhos fechados. E sonhava poder comê-la, de olhos bem abertos.
-Eu tenho sentido muito a falta de um namoradinho... alguém que me fizesse bem alegrinha, sabe?
-Hã... - e não falava mais nada, começava o ritual... segurava bem firme o "crucifixo".
-Tenho pensado muito nisso... e tenho tido outros sonhos impuros. Pequei, né?
-Aham...
-Padre, o senhor está me ouvindo? Parece tão "compenetrado"...
Era o diabo. Só podia. O coisa-ruim, lá no confessionário, fazia o padreco chamar Jesus de Genésio. A safadinha rezava de forma tão sincera que até parecia uma beatinha.
Levantou-se. Em nome do pai, do filho e do espírito-santo, ajeitou a saia. O cabelo. A blusinha.
-Obrigada, padre. Me sinto bem melhor agora.
-Pode ir, minha filha. Volte sempre...
Hoje o padreco abandonou a batina. Ficou com a mulherzinha. Ele até é legalzinho, romantiquinho, atende aos quesitos das florzinhas e sininhos.
E nossa heroína continua bastante religiosa... Mas o padreco não se engana, e abaixa a cabeça quando passa pelo batente da porta.
Amém.
mary jane

2 comentários:
Vc me faz perder o sono, sabia? Nunca canso de me surpreender com o teu talento prá palavra. Meu, MTO LOKO ESSE TEXTO!!! Caraco, Gatona, me dá tanta vontade de sair por aí anunciando as coisas q vc escreve... Sei q vc vai achar q é exagero, mas sabe akele lance q eu falei da sensação boa que dá qdo a gente aca de ler um livro muito bom? Aquela coisa de, primeiro, ficar brisando, lembrando disso e daquilo da história... ficar saboreando a parada um bom tempo, compenetrado... Depois, aquela vontade de comentar com todo o mundo, indicar prá todo mundo, "meu, lê tal livro, tal cara, show de bola". Acredite: qd vc escreve uma parada dessas, me deixa assim tbm. Tipo "efeito Saramago"!!! Adorei o texto - mais um prá minha lista de favoritos! Gatona, vc tem um talento, um dom particular. Me sinto, ao mesmo tempo, privilegiado , orgulhoso e incomodado de ser o único degustador dessa arte toda. Já te falei isso. Continuarei falando. Mas, por favor, não permita que a minha encheção de saco atrapalhe na tua criatividade. Sem mais nem menos, vc consegue me surpreender com umas poucas linhas. Vc consegue! Te amo demais, minha escritora! Imaginava que valeria a pena dar mais uma conferida no teu blog ainda essa noite, mas não esperava que fosse valer tanto!
Beijos.
Pô... em poucas palavras pq muito já foi dito por seu amigo aí.
Passei, gostei voltarei.
Postar um comentário